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Entrevista com a dubladora Marcia Morelli, a Taystee de Orange Is The New Black

Marcia comentou os desafios que a indústria de dublagem enfrenta atualmente

Hey guys, tudo bem com vocês? Eu sou o Gabriel Portella e hoje tenho a honra de mostrar para vocês a conversa que tive com uma veterana da dublagem, a Marcia Morelli! Com um currículo invejável, Marcia é a voz de personagens da saga Harry Potter, de séries como Bates MotelOrange Is The New Black, de desenhos animados como Steven Universo Ben 10: Omniverse e de jogos como League Of Legends!

Entrevista com o dublador Daniel Pim, o Lucas de Stranger Things!

1 – Olá Marcia, tudo bem? Você é uma veterana da dublagem no Brasil. Em todos esses anos de trabalho, o que mais mudou na indústria?

“Oi Gabriel, tudo bem? Então, mudou tudo né. Antigamente nós trabalhávamos com um canal só e era gravado com todos juntos, quase como uma radionovela. A gente fazia todos juntos, interpretávamos juntos e era bom por isso, era uma troca muito legal, tinha que ser ator de verdade pra conseguir fazer o trabalho bem feito, porque, além da interpretação, o sincronismo tinha que ser muito bom, porque naquela época não tinha ‘puxa’, ‘estica’, ‘coloca ali’, ‘coloca aqui!’ tinha que encaixar certinho ali, então os profissionais tinham que saber o que estavam fazendo né. Hoje em dia não, hoje a coisa ficou mais técnica. O computador… agora o Protus coloca qualquer fala em qualquer boca, você tem as ferramentas de encolher a fala, de esticar a fala, puxar a fala, atrasar a fala… Enfim, hoje em dia a coisa ficou mais técnica, a gente trabalha sozinho, não tem mais aquela troca artística dentro dos estúdios, acho que perdeu muito, a dublagem ficou muito técnica e perdeu um pouco a arte. 

Agora qualquer lugar você pode abrir um estúdio; antigamente não, antigamente eram grandes os maquinários, só quem sabia operar aquilo poderia fazer, hoje qualquer um faz! É só fazer um cursinho de Protus, ter um computador, uma salinha e um microfone, monta um estúdio. Então a coisa ficou mais fácil, mas no meu ponto de vista perdeu muito a qualidade. Hoje em dia os novos “talentos” da dublagem não chegam aos pés dos atores de antigamente né, que deram origem a esse trabalho lindo, o qual eu acho uma das vertentes mais bonitas do ator: a dublagem. Um trabalho muito difícil que as pessoas acham que é fácil, mas não é. Uma coisa bem dublada, bem feita, é muito difícil de ser feita”. 

2 – A Netflix, ao chegar ao Brasil, possuía um catálogo inteiramente dublado. Com o passar do tempo, a demanda por uma material no idioma original cresceu e eles se obrigaram a legendar toda a sua coleção. Você acha que a procura e consumo do entretenimento, não só nessa plataforma, em seu idioma original ameaça a dublagem?

“Olha Gabriel, eu acho que a dublagem nunca vai acabar, mas a maior ameaça para a dublagem são os próprios profissionais. Hoje em dia nós estamos vivendo um momento muito complicado na dublagem por causa dessa expansão. Está sendo uma expansão sem controle. Muita gente entrando no mercado sem saber o que está fazendo; por isso nós estamos vendo tanta dublagem mal feita no ar, porque é muita gente que está se metendo em um ramo que não conhece, que não tem um pingo de conhecimento sobre o que faz, e faz de qualquer jeito porque acha que dublagem é só falar português. Então eu acho que a maior ameaça para a dublagem é a própria dublagem.

Não a dublagem em si, lógico! Mas os profissionais, os profissionais estão dando um tiro no pé, porque não se organizam e não correm atrás para que seja regulamentado um acordo nacional para que todos cumpram regras iguais para que não haja uma concorrência desleal, pois o que está acontecendo é que existem muitos estúdios por ai que não seguem os acordos que Rio de Janeiro e São Paulo têm. Então o preço deles é bem abaixo do nosso e por isso os distribuidores correm atrás, pois eles querem saber de preços… Infelizmente os distribuidores hoje não querem mais saber de qualidade, eles procuram preço, e onde tem preço para eles não tem profissional competente! Então, a ameaça da dublagem está ai, não é na legendagem de nada, porque legendagem sempre vai existir. O que eu acho é que deve haver sempre todas as formas, o consumidor que deve escolher a forma em que ele quer consumir o programa. Se é no original, com legenda, dublado, você tem que ter essa opção, você não pode impor nada a pessoa que está vendo aquele programa. Ela tem o direito de escolher a forma em que ela quer assistir, né?”.

3 – Você é a voz da personagem Ashe no jogo League Of Legends, o e-sport mais popular do mundo. Qual sua opinião sobre o recente posicionamento da Organização Mundial da Saúde em relação ao vício em games?

“Estou meio por fora disso, porque vídeo game para mim é só uma diversão com meu marido, ali rapidinho… Não estou muito inteirada no mundo dos games, né? Apesar de ter dublado League Of Legends eu nunca joguei, não sei nem do que se trata… Enfim, mas sei que é muito famoso por ai  e tudo, mas assim, o que eu sei é que vídeo game (hoje em dia) é receitado até por médicos para evitar Alzheimer, né? Meu marido mesmo tem um senhor que joga com ele que foi indicação médica, o médico falou: ‘vai jogar vídeo game para manter seu cérebro sempre ativo e para evitar o mal de Alzheimer. Então eu acho que esse negócio ai tá meio furado viu, é mais uma campanha para derrubar uma indústria que está crescendo absurdamente (que está sobrepondo até mesmo a de cinema). Hoje em dia há muito mais games do que filmes, né? E essa indústria só tende a crescer. Enfim, é aquela coisa né, do sistema: há alguém crescendo mais do que eu, vamos dar uma pernada para dar um escorregão. É mais ou menos por ai”.

4 – Há poucos dias, tivemos a cerimonia de premiação do Globo de Ouro, onde muitas atrizes e atores protestaram contra o abuso sexual presente na indústria, em especial com as mulheres. Você já participou da dublagem de filmes como Mulher-Maravilha (2017) e Ghostbusters (2016), ambos com um protagonismo feminino muito forte. Para você, qual a importância para a sociedade que filmes com este tipo de protagonismo se tornem cada vez mais relevantes?

“Cara eu acho fundamental, porque o cinema é machista demais! Você vê um filme ai de 100 personagens, 98 são masculinos; e a mulher é a parte fundamental desse mundo, é ela que gera o ser… E sempre relegada a segundo plano, então eu acho que está mais do que na hora das mulheres tomarem o lugar que elas merecem, como fortes, decididas e guerreiras. As mulheres são muito guerreiras, e a gente têm que tomar nosso lugar no mundo, está mais do que na hora do mundo reconhecer o papel feminino na sociedade e dar à elas o devido reconhecimento. Eu acho maravilhoso que o cinema esteja agora focando seus filmes para personagens femininos, acho isso fantástico e para nós – dubladoras – melhor ainda porque é uma luta conseguir um papel em um filme. São tão poucos papéis femininos para tantas mulheres dubladoras… Eu acho isso maravilhoso”.

5 – Você já dublou personagens de grandes produções da cultura geek, como é o caso da Lily Potter na saga Harry Potter e da Taystee em Orange Is The New Black. As pessoas, em seu cotidiano, reconhecem seu trabalho? Como é esta abordagem?

“Olha, a minha voz é muito comum né, eu não tenho uma voz muito marcante, então eu geralmente não sou muito reconhecida não. Antigamente então, nunca ninguém… Até minha própria família, para reconhecer minha voz em alguma produção… Nossa, eu ficava muito irritada! Como é que vocês não conhecem? Convivem comigo o dia inteiro e não conhecem minha voz! Ai todo mundo: ‘Ah, mas fica muito diferente e não sei o que’. Enfim, nunca fui muito reconhecida pela voz acho que por isso; por minha voz não ter nenhuma característica marcante. Mas assim, já fui reconhecida em alguns lugares, não pela voz, fisicamente, pois depois da internet, minhas fotos, muita gente vê fotos né? Já fui reconhecida não pela voz, mas fisicamente”.

6 – Você já dublou séries, filmes e games. Em qual deles a dublagem se torna mais difícil? Por quê?

“Cara dublagem é difícil, tá? Fica mais difícil quando você não se encaixa com o personagem que você está fazendo… Não é seu perfil… E isso acontece as vezes; diretor não tem opção para escalar porque é um papel difícil, não teria outra pessoa que seguraria aquele papel ai escala você, porque você é bom profissional, mas não tem o perfil daquele personagem, então fica um pouco mais difícil o trabalho.

E outra coisa também que eu acho bem difícil é o game, porque o game não é um trabalho de dublagem comum; pelo menos os games que eu fiz não tem imagem, a gente só tem o som como guia. E dublagem é imagem né! E quando você não tem a imagem para te guiar, para te dar o ambiente em que você está, o que você está fazendo… Isso se torna muito difícil! Se o diretor não te situar ali no momento da gravação: o que você está fazendo naquela hora, a intenção que você tem que dar; se ele não te der todas essas referências, realmente é muito difícil, só pela voz original, você conseguir passar, porque cada Língua tem o seu jeito, né? De falar, de se expressar, então eu acho bastante difícil fazer o game por conta disso, porque não tem a imagem. Alguns até têm né, mas eu nunca fiz desses que tem imagem, que a gente sincroniza. Eu nunca participei de games assim, todos os games que eu fiz foram só com áudio e eu achei bastante difícil por isso, porque não estou sabendo onde eu estou, em que situação eu estou, só to falando ali na intenção que o diretor fala para eu fazer e ponto. Então eu acho uma dificuldade maior ai nesse ponto”.

7 – Ao analisar seu currículo notam-se diversas personagens diferentes. Como você se prepara para dublar cada uma delas? É sempre a mesma coisa?

“Quando eu sou escalada para fazer um filme, eu não sei qual é o filme e nem qual personagem eu vou fazer, só quando eu chego no estúdio é que eu vou saber qual a personagem, qual filme. Então não tem preparação, né? O difícil da dublagem é isso, é você estar sempre preparado para qualquer coisa. Eu graças a Deus sou bem versátil, eu consigo fazer coisas bem diferentes e agradeço muito por isso, tenho uma lista de personagens maravilhosos dentro da minha carreira. Agradeço muito aos meus companheiros/amigos que me deram tantas oportunidades excelentes, mas eu nunca me preparei para nenhum deles, tudo é na hora. Dublagem é isso: na hora. Não tem que estudar texto, não tem que decorar texto, não tem que estudar personagem, não tem tempo para isso, né? A gente entra no estúdio e ‘gravando!’, você tem que copiar o que está ali. Dublagem é cópia, a gente não cria nada; a gente tem que saber copiar, a gente tem que saber imitar, a gente tem que saber fazer o que o outro fez. Isso é dublar.”

8 – Nos últimos anos, muitos Youtubers estão assumindo os papéis de dubladores em grandes produções. A maior constatação dos fãs da dublagem é que eles podem não ter a habilidade necessária para uma boa dublagem. Você acha positiva ou negativa essa migração de influenciadores digitais para a dublagem?

“Pois é né, eu acho isso um absurdo, porque é mesma coisa que eu, como atriz, querer arrancar seu dente. Eu vou estar o que? Exercendo uma profissão que eu não estudei para isso, não me preparei para isso… Exercendo uma profissão que não é minha, né? Então, é óbvio que o trabalho não vai ser bem feito, mas infelizmente hoje em dia está tudo assim, nós não temos controle mais da nossa profissão (dublador), quem manda é quem paga e a gente tem que aceitar. Mas isso me irrita profundamente, eu não gosto e não assisto nada dublado por pessoas que não são profissionais, não deixo meu ouvido se poluir com esse tipo de trabalho.  Além do mais, isso me machuca, me magoa. É isso”.

9 – O número de eventos nerd/geeks no Brasil está crescendo e o país está se tornando referência para a cultura pop. Você acha que isso é favorável à dublagem? Por quê?

“Eu acho isso legal, já fiz alguns, eu acho que é um bom contato com o público, nós que somos anônimos, acho que é maravilhoso a gente saber que nosso trabalho é reconhecido, que muita gente curte… Acho isso muito legal, só tem a engrandecer a profissão e a nós mesmos. É uma massagem no ego incrível… Enfim, eu acho legal”. 

10 – Por fim Marcia, quais seus planos para o futuro? Pretende seguir na dublagem?

“Ah sim, planos, sempre! O ser humano sem planos não existe, está morto. Sempre temos planos. Vou continuar dublando, claro, é minha profissão há mais de 27 anos e vou morrer fazendo isso se Deus quiser, mas tenho outros planos, claro!”

Eu entrevistei a atriz Linnea Berthelsen, a Kali da segunda temporada de Stranger Things!

Bom guys, é isso, estou muito feliz com essa entrevista acho que ela é extremamente informativa e pode se tornar pioneira de muitas discussões. Sou muito fã da Marcia e guys, ter a oportunidade de ter essa conversa foi incrível e é óbvio que eu devo isso a vocês!

E ATENÇÃO!! Dia 16/01 (terça-feira) sai a entrevista que eu fiz com o ator Ellis Rubin, que atuou lado a lado com o Hugh Jackman (Wolwerine) no filme O Rei do Show! Ele me contou como foi essa experiência e muito mais!

 

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